O que difere um narrador de um contador de histórias?

06/10/2021 23:30:35
Editora Hedra
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Por Patrícia Lavelle.

O contador de histórias e outros textos
Walter Benjamin

No primeiro parágrafo do ensaio sobre o contista russo Nikolai Leskov der Erzähler, de 1936, Benjamin constrói uma imagem: “Leskov como contador de histórias não significa trazê-lo para mais perto de nós, mas aumentar a distância que nos separa dele. Se o considerarmos com certo distanciamento, os traços grandes e simples que caracterizam o contador de histórias nele ganham relevo. Melhor dizendo, aparecem tal como um rosto humano ou um corpo de animal podem aparecer num rochedo para alguém que os examine a uma boa distância e do ponto de vista adequado.”

O rochedo aqui é a obra de Leskov. No relevo de seus contos, este leitor situado a boa distância e do ponto de vista adequado projeta a figura do contador de histórias. Numa carta endereçada à Werner Kraft, Benjamin reforça os contornos projetivos desta figura, apresentando-a como um tipo: “Tenho me ocupado sobretudo com um estudo sobre Nikolai Leskov no qual falo menos sobre este grande contista russo do que sobre o tipo do contador de histórias em geral, sua relação com o romancista e com o jornalista e seu lento desaparecimento da face da Terra”. (Gesammelte Briefe, v, p. 289.)

Em toda narração – romances e relatos informativos inclusive –, podemos identificar uma instância que conduz a intriga: que seja impessoal e onisciente ou um personagem da trama, ou ainda uma voz ou vozes indeterminadas. Ao evocar o contador de histórias, Benjamin não se refere ao narrador como instância interna, necessária à estruturação de qualquer texto narrativo, mas a um ideal-tipo, se quisermos usar esta categoria cunhada por Weber. Trata-se de uma representação sócio-histórica que aqui funciona também como imagem:  a figura arcaica do contador de histórias, cujas origens pré-modernas se encontram na tradição oral, na transmissibilidade da experiência tradicional (Erfahrung), perdida no mundo moderno.

A opção pela tradução por “contador de histórias” e não por “narrador” visa portanto evitar a ambiguidade entre esta figura, espécie de personagem teórico esboçado por Benjamin e projetado na obra de Leskov, e a instância narrativa interna ao texto. Afinal, dizer que não sabemos mais contar histórias ou que a arte de contá-las está em vias de desaparecimento não significa afirmar o fim da possibilidade literária de narrar, o que seria contraditório inclusive com a escrita de contos que o próprio Benjamin vinha desenvolvendo desde os anos vinte. Numa certa recepção do Erzähler, traduzido como “narrador”, essa confusão aconteceu.

Quando se lê o ensaio sobre Leskov no contexto desta produção ficcional de Benjamin, a figura concreta do contador de histórias aparece claramente. O contista a representa ficcionalmente nestes textos como um tipo humano associado à transmissão oral e à sabedoria prática. Neste sentido, a tradução por “contador de histórias” está relacionada ao trabalho de pesquisa que desenvolvi também no estudo dos contos de Benjamin, que eram inéditos no Brasil, e foram incluídos no volume O contador de histórias e outros textos que concebi e organizei para a editora Hedra, dentro da coleção Walter Benjamin.

Se o crítico Benjamin projeta um personagem sobre o material textual com o qual opera, o contista o coloca em cena. Em algumas de suas short stories mais significativas, a instância narrativa é múltipla.  Benjamin encaixa narrações dentro de outras narrações, associando características que seu ensaio atribui ao contador de histórias a um narrador-personagem com o qual se relaciona um outro narrador, as vezes identificado na intriga ao autor do texto.

“O lenço”, por exemplo, inclui a minuciosa descrição de um marinheiro, o Capitão O., que possui as características sociológicas do “contador de histórias”, tal como o ensaio sobre Leskov as apresenta. Entretanto, o Capitão O. não é o narrador predominante no conto. Na narrativa que se estrutura em torno de um eu com a qual o autor do texto se confunde, o marinheiro é o personagem principal. Mas num determinado momento também atua como narrador, contando uma história ao narrador em primeira pessoa. O marinheiro aparece assim como uma espécie de alegoria que permite apresentar numa intriga narrativa a figura do contador de histórias e, paradoxalmente, o declínio de sua arte na modernidade.

Podemos encontrar um outro exemplo interessante em “O anoitecer da viagem”, conto ambientado na Ibiza ainda quase selvagem do início dos anos 30, onde Benjamin realizou longas estadias. O conto inicia com algumas considerações sobre o arcaísmo da economia da ilha numa voz narrativa neutra, em terceira pessoa, que introduz a figura de Dom Rossello, comerciante de vinhos, proprietário da pequena taberna na qual se pode beber e conversar. Logo percebemos que Dom Rossello é um contador de histórias, o camponês que conhece as tradições e causos de sua ilha.

Ainda nesta voz narrativa em terceira pessoa, conta-se à sua mesa a história de um estrangeiro que, logo antes da partida, ouvira com prazer as histórias da ilha até descobrir, já no navio, que provavelmente teria sido roubado pelo dono da taberna. Mas contra toda expectativa, o estrangeiro recebe do taberneiro um telegrama com instruções para recuperar o dinheiro, esquecido por engano. O final do conto quebra a neutralidade da narrativa em terceira pessoa, sugerindo uma situação de interlocução entre o narrador e Dom Rossello. Este último empresta assim sua voz ao contador de histórias e, agora em primeira pessoa, conclui o conto com uma máxima moral.

Estes dois exemplos permitem mostrar como Benjamin distingue o narrador interno à escrita dos contos da figura do contador de histórias e, colocando-os face a face, produz interessantes efeitos narrativos em sua própria produção ficcional. Daí o interesse de descobrir estes textos ficcionais que lançam novas e interessantes perspectivas sobre o conhecido ensaio sobre Leskov, agora em nova tradução.